A iniciativa criada pelo Papa Francisco chega à décima edição em 2026. Em sua mensagem, o Papa Leão XIV convida a Igreja a ser refúgio para os pobres e a reconhecer sua dignidade, sua voz e seu protagonismo.
A Jornada Mundial dos Pobres é um convite à Igreja e à sociedade para refletir sobre a pobreza, combater a indiferença e transformar a solidariedade em compromisso permanente com a dignidade humana e a justiça social.
Instituída pelo Papa Francisco em 2016, ao final do Ano Santo da Misericórdia, a Jornada teve sua primeira edição em 2017. Celebrada anualmente no 33º Domingo do Tempo Comum, a iniciativa reúne comunidades, pastorais e organizações sociais em momentos de oração, encontro, partilha e ações concretas em favor das pessoas em situação de vulnerabilidade.

Em 2026, a Jornada chega à sua décima edição, com mobilização no Brasil entre os dias 8 e 15 de novembro. O lema escolhido, “O Senhor é o refúgio do pobre” (Sl 14,6), inspira uma reflexão sobre a presença de Deus na vida daqueles que enfrentam a pobreza e sobre a responsabilidade das comunidades cristãs diante das desigualdades.
O chamado do Papa Leão XIV
Na mensagem para o 10º Dia Mundial dos Pobres, celebrado em 15 de novembro, o Papa Leão XIV recorda que a fé cristã não pode estar separada do compromisso com a justiça e com aqueles que sofrem as consequências da exclusão social.
O Pontífice denuncia uma realidade marcada pela indiferença, pelo abuso de poder e por mecanismos que silenciam as reivindicações das pessoas empobrecidas. Ele também alerta para o preconceito no ambiente digital, que pode ampliar a invisibilidade de quem já enfrenta dificuldades para ter seus direitos reconhecidos.
Para Leão XIV, o refúgio anunciado nas Escrituras torna-se concreto na pessoa de Jesus Cristo, que se aproxima dos marginalizados, partilha o sofrimento humano e devolve esperança àqueles que foram esquecidos.
Essa compreensão também se traduz em uma responsabilidade para a Igreja. O Papa afirma que a comunidade cristã não pode permanecer indiferente às pessoas que vivem à margem da sociedade. Ser refúgio significa acolher, reconhecer a dignidade humana e construir relações de fraternidade.
A mensagem propõe ainda uma reflexão sobre a maneira como a sociedade se relaciona com a pobreza. Não basta oferecer ajuda sem conhecer as histórias, as necessidades e as expectativas daqueles que a recebem. É preciso criar oportunidades de participação e reconhecer que todas as pessoas têm algo a contribuir.
Acolher, escutar e transformar
Inspirada na mensagem do Papa, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) organiza a 10ª Jornada Mundial dos Pobres em três dimensões fundamentais: acolher, escutar e transformar.
Acolher é fazer das comunidades espaços de cuidado, proteção e convivência, capazes de responder às necessidades humanas sem discriminação.
Escutar significa reconhecer as pessoas empobrecidas como sujeitos de direitos e protagonistas de suas histórias. É compreender que a construção de soluções exige diálogo, respeito e participação.
Transformar representa o compromisso de ir além das respostas emergenciais, enfrentando as causas da pobreza e fortalecendo iniciativas voltadas à moradia digna, à segurança alimentar, ao trabalho, à educação, à saúde e à defesa dos direitos humanos.
Essas três dimensões mostram que a caridade e a justiça social não são caminhos separados. O cuidado imediato é necessário, mas deve caminhar junto com ações capazes de transformar as condições que produzem desigualdade e exclusão.
A Jornada e a missão da Cáritas
A proposta da Jornada Mundial dos Pobres encontra profunda relação com a missão da Cáritas, que tem na solidariedade, na defesa da vida e na promoção da dignidade humana fundamentos de sua atuação.
Para a Cáritas Arquidiocesana de Campinas, a reflexão proposta pela Jornada reforça a importância de reconhecer as pessoas em situação de vulnerabilidade não apenas por suas necessidades, mas também por suas capacidades, experiências e direitos.
A solidariedade, nessa perspectiva, não se resume à entrega de alimentos ou ao atendimento de necessidades imediatas. Ela envolve o fortalecimento de vínculos comunitários, a participação social, a promoção da cidadania e o compromisso com uma sociedade em que todas as pessoas tenham condições dignas de vida.
A Jornada também recorda que o enfrentamento da pobreza exige responsabilidade coletiva. A atuação das organizações sociais e das comunidades religiosas deve caminhar ao lado de políticas públicas que assegurem direitos e enfrentem as desigualdades estruturais.
O exemplo de São Francisco de Assis
A edição de 2026 ganha um significado especial ao coincidir com os 800 anos da morte de São Francisco de Assis.
Em sua mensagem, Leão XIV recorda um episódio da vida do santo, que, durante uma peregrinação a Roma, trocou suas roupas pelas vestes de um mendigo e passou o dia entre os pobres, procurando experimentar sua realidade.
O gesto é apresentado como um exemplo de proximidade e humildade. Mais do que falar sobre a pobreza, São Francisco procurou compreender a experiência daqueles que a enfrentavam.
O Papa retoma essa inspiração para convidar os cristãos a superar a distância entre quem ajuda e quem recebe ajuda, construindo relações baseadas no respeito, na escuta e na fraternidade.
Um compromisso que vai além de uma data
A Jornada Mundial dos Pobres não pretende limitar a solidariedade a uma semana de mobilização. Seu propósito é estimular uma mudança permanente de atitudes, fortalecendo comunidades que acolham, escutem e participem da transformação da sociedade.
Ao completar dez edições, a iniciativa reafirma que a pobreza não pode ser tratada com indiferença e que a dignidade humana deve orientar tanto os gestos individuais de solidariedade quanto as decisões coletivas.
Para a Cáritas, essa é uma mensagem que permanece atual durante todo o ano: caminhar com as pessoas empobrecidas, reconhecer seus direitos e contribuir para que a esperança se transforme em justiça e oportunidades de vida digna.
A 10ª Jornada Mundial dos Pobres convida, assim, cada pessoa e cada comunidade a refletir sobre sua responsabilidade na construção de um mundo mais fraterno, no qual ninguém seja esquecido ou deixado para trás.