O pensamento de Paul Singer ajuda a compreender como cooperação, autogestão e participação democrática podem gerar renda, fortalecer comunidades e construir relações econômicas mais justas

Ilustração inspirada no legado de Paul Singer e nos princípios de cooperação e autogestão da economia solidária.

Quando uma empresa fecha, os trabalhadores geralmente se veem diante da mesma preocupação: como continuar garantindo o sustento de suas famílias? Mas algumas experiências mostram que existe outro caminho além da busca por um novo emprego. Em diferentes regiões do Brasil, trabalhadores passaram a se organizar coletivamente para manter atividades produtivas, criar oportunidades de renda e decidir juntos os rumos de seus empreendimentos.

Essas iniciativas fazem parte da economia solidária, uma forma de organização econômica que coloca a cooperação e a participação dos trabalhadores no centro das decisões. Em vez de concentrar a gestão nas mãos de um proprietário, o modelo propõe que aqueles que realizam o trabalho também participem da administração e da distribuição de seus resultados. Foi nessa possibilidade de democratizar as relações econômicas que o economista Paul Singer (1932–2018), professor da Universidade de São Paulo (USP), encontrou um dos principais caminhos de sua trajetória intelectual e política.

Uma economia em que todos participam

A principal diferença entre um empreendimento solidário e uma empresa convencional está na maneira como o trabalho é organizado e as decisões são tomadas. Enquanto nas empresas tradicionais a gestão costuma ser exercida pelos proprietários ou por administradores contratados, na economia solidária os trabalhadores procuram construir uma gestão compartilhada, na qual todos tenham condições de participar das escolhas que afetam a atividade econômica.

Esse princípio, conhecido como autogestão, envolve desde a definição das prioridades do empreendimento até a utilização dos recursos e a distribuição dos resultados. Uma cooperativa de catadores de materiais recicláveis, por exemplo, pode organizar coletivamente não apenas a coleta e a separação dos resíduos, mas também seu processamento e sua comercialização. Ao participar de diferentes etapas da cadeia produtiva, os trabalhadores ampliam suas possibilidades de negociação e podem conquistar melhores condições de renda.

A mesma lógica está presente em associações de agricultores familiares, grupos de artesãos, cooperativas de produção e redes de comércio justo. Embora atuem em setores diferentes, essas iniciativas compartilham a proposta de organizar a atividade econômica a partir da colaboração entre seus integrantes. Isso não significa abrir mão da eficiência ou dos resultados financeiros, pois qualquer empreendimento precisa gerar receitas, pagar despesas e garantir sua continuidade. O que muda é a maneira como as decisões são construídas e como os benefícios do trabalho são compartilhados.

Paul Singer e a construção de uma alternativa

A trajetória de Paul Singer ajuda a compreender como essas experiências ganharam importância no Brasil. Durante a crise econômica dos anos 1980, o fechamento de empresas e o crescimento do desemprego levaram milhares de trabalhadores a procurar alternativas para sobreviver. Foi nesse contexto que começaram a ganhar força iniciativas comunitárias de produção e geração de renda, algumas delas organizadas por pessoas que haviam perdido seus empregos.

Singer tomou conhecimento dessas experiências e visitou grupos que desenvolviam atividades produtivas de maneira coletiva. O que chamou sua atenção não foi apenas a possibilidade de gerar renda, mas o fato de os próprios trabalhadores participarem da organização e das decisões sobre o trabalho. Para o economista, aquelas iniciativas demonstravam que a produção poderia funcionar a partir de relações mais democráticas, sem depender exclusivamente da hierarquia tradicional entre proprietários e empregados.

A partir dessa compreensão, Singer passou a defender a economia solidária não apenas como uma resposta emergencial ao desemprego, mas como uma alternativa de organização econômica capaz de ampliar a autonomia dos trabalhadores. Sua reflexão contribuiu para aproximar experiências comunitárias, movimentos sociais e universidades, dando maior visibilidade a práticas que já existiam em diferentes regiões do país. Em 2003, ao assumir a Secretaria Nacional de Economia Solidária, ele passou a atuar diretamente na construção de políticas públicas voltadas ao reconhecimento e ao fortalecimento desses empreendimentos.

A contribuição histórica da Cáritas

Entre as experiências que contribuíram para a formação do pensamento de Paul Singer estavam iniciativas apoiadas pela Cáritas Brasileira. Durante a crise econômica dos anos 1980, a instituição desenvolveu os chamados Projetos Alternativos Comunitários (PACs), que procuravam oferecer condições para que grupos de trabalhadores e comunidades organizassem atividades produtivas e criassem alternativas de geração de renda.

Com apoio de redes de solidariedade e cooperação, esses projetos contribuíram para a formação de iniciativas coletivas em um período marcado pela perda de empregos e pelo agravamento das dificuldades econômicas. Ao conhecer algumas dessas experiências, Singer identificou nelas exemplos concretos de organização democrática do trabalho, reconhecendo a importância da Cáritas no desenvolvimento da economia solidária brasileira.

A participação da instituição integrou um movimento mais amplo, que também contou com sindicatos, universidades, organizações populares e grupos de trabalhadores. Ao longo das décadas seguintes, a Cáritas Brasileira continuou apoiando iniciativas de economia popular solidária, relacionando geração de renda, organização comunitária e desenvolvimento sustentável. Essa trajetória revela uma dimensão importante da solidariedade: além de atender necessidades imediatas, ela pode contribuir para que pessoas e comunidades conquistem maior autonomia e participem das decisões que afetam suas próprias vidas.

Paul Singer explica a economia solidária

Em depoimento à Fundação Rosa Luxemburgo, Paul Singer recupera experiências que contribuíram para a construção da economia solidária no Brasil, incluindo iniciativas comunitárias apoiadas pela Cáritas. Seu relato ajuda a compreender como a organização coletiva do trabalho ganhou força diante do desemprego e das dificuldades econômicas.

Paul Singer: Economia Solidária no Brasil / Fundação Rosa Luxemburgo · 2015

Do trabalho comunitário às políticas públicas

As experiências de economia solidária que ganharam força nas comunidades brasileiras ao longo das últimas décadas também abriram caminho para o reconhecimento dessa forma de organização do trabalho pelo poder público. O que começou como alternativa de sobrevivência para muitos trabalhadores passou a integrar uma discussão mais ampla sobre geração de renda, participação democrática e desenvolvimento econômico.

Esse processo alcançou um marco importante em dezembro de 2024, com a sanção da Lei nº 15.068, que instituiu a Política Nacional de Economia Solidária e criou o Sistema Nacional de Economia Solidária (Sinaes). Ao reconhecer princípios como cooperação, autogestão, comércio justo e distribuição equitativa dos resultados do trabalho coletivo, a legislação deu respaldo institucional a práticas que já faziam parte da realidade de inúmeras comunidades. A regulamentação, em dezembro de 2025, representou mais uma etapa na organização dessa política.

Mas o reconhecimento legal, por si só, não garante que uma cooperativa consiga sobreviver economicamente. Os trabalhadores ainda precisam enfrentar dificuldades para obter crédito, comercializar seus produtos e competir com empresas que dispõem de mais recursos e estrutura. Há também os desafios internos da própria autogestão, que exige diálogo, transparência e disposição para tomar decisões coletivas.

É justamente nesse ponto que a economia solidária precisa demonstrar sua capacidade de transformar princípios em resultados concretos. Para que a cooperação se traduza em melhores condições de vida, não basta reunir trabalhadores em torno de um empreendimento. É necessário garantir acesso a recursos, conhecimento e mercados, permitindo que essas iniciativas se mantenham economicamente viáveis e ofereçam oportunidades duradouras de trabalho e renda.

Solidariedade também é uma forma de organizar a economia

A economia solidária não elimina, por si só, as desigualdades sociais, mas demonstra que existem outras maneiras de organizar o trabalho. Ao permitir que as pessoas participem não apenas da produção, mas também das decisões sobre os resultados que ajudam a construir, essas experiências colocam em discussão uma questão fundamental: quem deve ter voz sobre os rumos da atividade econômica?

Paul Singer dedicou sua trajetória a mostrar que essa participação poderia representar mais do que uma solução temporária para momentos de crise. Para ele, a democracia não deveria ficar restrita às instituições políticas, mas também poderia fazer parte das relações de trabalho e da organização da produção. A participação histórica da Cáritas Brasileira nesse movimento mostra como iniciativas nascidas das necessidades concretas das comunidades contribuíram para dar forma a essa proposta.

Em uma sociedade na qual o acesso ao trabalho e à renda continua sendo um desafio para milhões de pessoas, a economia solidária mantém viva uma reflexão que ultrapassa o funcionamento das cooperativas. Afinal, o desenvolvimento econômico deve ser medido apenas pela riqueza produzida ou também pela autonomia, pela participação e pela dignidade de quem trabalha?


Fontes e referências

  • Paul Singer — Introdução à Economia Solidária (2002).
  • Cáritas Brasileira — histórico dos Projetos Alternativos Comunitários e publicações sobre economia popular solidária.
  • Fundação Rosa Luxemburgo — Paul Singer: Economia Solidária no Brasil (2015).
  • Rede TVT — Paul Singer: economia solidária é alternativa ao capitalismo (2012).
  • Lei nº 15.068/2024 — Política Nacional de Economia Solidária.
  • Decreto nº 12.784/2025 — regulamentação da Política Nacional de Economia Solidária.