Em sua 32ª edição, mobilização realizada no 7 de Setembro reúne movimentos sociais, pastorais e organizações em torno da defesa da terra, da paz, da moradia, das mulheres e da soberania.
Todos os anos, o 7 de Setembro marca as comemorações pela Independência do Brasil. Há mais de três décadas, porém, a data também se tornou espaço para outra manifestação. O Grito dos Excluídos 2026 em Campinas integra uma mobilização nacional que leva às ruas as vozes de pessoas e grupos que reivindicam direitos, dignidade e participação na sociedade.
Em 2026, o Grito chega à sua 32ª edição mantendo o tema permanente “Vida em Primeiro Lugar!” e trazendo como lema “Na defesa da Terra, da Paz e da Moradia, erguemos a voz: Mulheres Vivas e Soberania!”.
A mobilização coloca em evidência questões que atravessam diferentes realidades brasileiras, como o acesso à terra e à moradia digna, a construção da paz, o enfrentamento à violência contra as mulheres e a defesa da soberania e da democracia.

Um Grito que nasceu para dar voz
O Grito dos Excluídos e Excluídas surgiu a partir das reflexões da 2ª Semana Social Brasileira, realizada em 1993 e 1994, e da Campanha da Fraternidade de 1995, que teve como tema “A Fraternidade e os Excluídos”.
A primeira mobilização aconteceu em 7 de setembro de 1995. A escolha da data estabeleceu um contraponto às comemorações oficiais da Independência, trazendo para o espaço público uma pergunta que permanece atual: como falar em independência enquanto parte da população ainda encontra dificuldades para acessar direitos fundamentais?
Desde então, o Grito passou a reunir movimentos populares, pastorais, organizações sociais, igrejas e diferentes grupos da sociedade civil em mobilizações realizadas em várias regiões do país.
Mais do que uma manifestação concentrada em um único dia, tornou-se também um processo de articulação e participação social construído ao longo do ano.
A Cáritas Brasileira integra a Coordenação Nacional do Grito dos Excluídos e Excluídas.
Uma mobilização que ocupa as ruas de Campinas
Em Campinas, o Largo do Pará, na região central, é o tradicional ponto de concentração do Grito dos Excluídos e Excluídas.
A partir dali, a mobilização segue pelas ruas da região central, tendo a Avenida Francisco Glicério como um de seus principais caminhos. Cartazes, faixas, manifestações culturais e falas de representantes de movimentos e organizações transformam o percurso em espaço de reivindicação e participação popular.

A participação da Cáritas Arquidiocesana de Campinas no Grito está registrada em diferentes edições da mobilização. Em anos recentes, a instituição esteve presente nas manifestações realizadas na cidade ao lado de movimentos, lideranças, pastorais e organizações comprometidas com a defesa da vida, da dignidade humana e da justiça social.
Essa presença se relaciona com o trabalho desenvolvido diariamente pela Cáritas junto a pessoas e comunidades que enfrentam diferentes situações de vulnerabilidade e exclusão.
Moradia também significa pertencimento
Entre os temas que ganham destaque no Grito de 2026 está o direito à moradia.
A questão ultrapassa a existência de um teto. Moradia envolve segurança, vínculos comunitários, acesso aos serviços públicos, direito à cidade e a possibilidade de construir um lugar de pertencimento.
Nas cidades, uma das faces mais visíveis da negação desse direito é a realidade das pessoas em situação de rua.
Em Campinas, essa realidade faz parte do cotidiano de serviços e organizações que trabalham com acolhimento, proteção social e garantia de direitos. Mas números e políticas públicas, embora fundamentais para compreender a dimensão do problema, não contam sozinhos as histórias das pessoas que vivem essa realidade.
É nesse contexto que a própria voz de quem convive diariamente com essa realidade ajuda a ampliar o olhar.
Em 19 de agosto, Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua, Cidinha Régis escreveu “Quando a Rua Grita”. O texto reúne questões que também atravessam o Grito dos Excluídos e Excluídas: invisibilidade, dignidade, direitos, participação e pertencimento.
Quando a Rua Grita
Cidinha Régis — 19 de agosto de 2026
Não somos invisíveis,
embora tantos passem por nós
sem sequer nos olhar.
Não somos números,
nem histórias perdidas,
nem vidas esquecidas
nas calçadas da cidade.
Somos gente.
Temos nome,
temos sonhos,
temos memórias,
temos saudades,
temos voz.
A rua não apaga uma história.
A rua não tira de ninguém
o direito de existir.
E quando a cidade insiste em não nos ver,
a nossa presença responde:
estamos aqui!
Aqui estão nossas mãos,
que trabalham.
Nossos corpos,
que resistem.
Nossos olhos,
que ainda sonham.
Nossos corações,
que apesar de tudo,
ainda esperam.
Esperam por respeito.
Por dignidade.
Por direitos.
Por uma sociedade
onde ninguém precise morar na rua
para ser lembrado
de que existe.
Hoje não caminhamos apenas pelas ruas.
Caminhamos pela nossa história.
Cada cartaz levantado,
cada voz que se manifesta,
cada punho erguido
diz a mesma coisa:
não queremos caridade como resposta,
queremos direitos como garantia.
Queremos ser ouvidos
nas decisões que falam sobre nossas vidas.
Queremos participar.
Queremos escolher.
Queremos pertencer.
Porque pertencer
é muito mais do que ter um endereço.
É ter um lugar no mundo.
É ser reconhecido.
É ser chamado pelo nome.
É saber que a nossa existência
também importa.
E se a rua um dia nos obrigou
a viver no abandono,
hoje fazemos dela
um lugar de voz e resistência.
Que ninguém confunda
silêncio com ausência.
Porque quando a população em situação de rua
se reúne,
se organiza
e levanta a sua voz,
a rua grita.
E quando a rua grita,
a cidade precisa escutar.
Hoje, 19 de agosto,
não celebramos a dor.
Celebramos a resistência.
Celebramos aqueles que permanecem de pé
mesmo quando a vida tentou derrubá-los.
E gritamos juntos:
Ninguém é invisível.
Ninguém é descartável.
Ninguém deve ser deixado para trás.
Enquanto houver uma pessoa
sem teto, sem direitos, sem voz,
a nossa luta continuará.
Porque lutar por quem está na rua
é lutar por uma cidade
onde toda vida tenha lugar.
E toda vida merece pertencer.
Vida em primeiro lugar
O poema de Cidinha encontra no Grito dos Excluídos e Excluídas uma questão que acompanha a mobilização desde sua origem: quem são as pessoas que a sociedade ainda não consegue — ou não quer — enxergar?
Terra, paz, moradia, enfrentamento à violência contra as mulheres, soberania, democracia e participação social podem parecer pautas distintas. No Grito, elas se encontram em um princípio comum: a defesa da vida e da dignidade humana.
Colocar a vida em primeiro lugar significa também reconhecer que enfrentar a exclusão não se resume ao atendimento de necessidades imediatas. Passa pela garantia de direitos, pela construção de políticas públicas e pela participação das próprias pessoas nas decisões que interferem em suas vidas.
No próximo 7 de setembro, o Grito dos Excluídos e Excluídas volta às ruas em sua 32ª edição.
Em Campinas, a Cáritas Arquidiocesana participa mais uma vez à mobilização, reafirmando seu compromisso com uma sociedade em que ninguém seja invisível, descartável ou deixado para trás.
Porque, quando as vozes tantas vezes silenciadas ocupam as ruas, a cidade precisa escutar.
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