“Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14)

Continuando nosso olhar sobre a questão da moradia, vemos com o coração e com os olhos da fé a realidade da moradia precária no Brasil, considerada como uma mercadoria cara de consumo individual ou familiar, um consumo compulsório pois ninguém pode viver sem moradia. Neste sentido, lembramos a exortação do Papa Francisco que nos convida: “não fiquem na varanda olhando a vida, mergulhe nela. Jesus não ficou na varanda, mergulhou.” (Christus Vivit, 174)
O Evangelho nos diz: “e a palavra se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14), lema da CF 2026. Ele expressa a Encarnação, quando o filho de Deus assume a condição humana e vem morar entre nós, ser o “Emanuel”, Deus conosco.
No Antigo Testamento, a habitação do povo, também adotada por Deus no caminho do deserto, é a tenda. Jesus, o Verbo Divino, entra nessa morada, símbolo da fragilidade humana. Ele mora entre nós, mas especialmente entre os mais privados de direitos e dignidade. Na narrativa do nascimento de Jesus (Lc 2,1-20) vemos que o Menino foi reclinado numa manjedoura, pois “não havia lugar para eles na hospedaria”. Jesus nasce entre os que não têm lugar. A cena do nascimento é um protótipo para todo o seu ministério, sendo solidário com os mais pobres e pregando nas periferias, na Galileia. Jesus também precisou se refugiar, “fugindo às pressas” por causa do poder de Herodes. A vida toda de Jesus é um forte apelo a encontrá-lo na vida de tantos que habitam nas inúmeras periferias geográficas e existenciais.
A casa na trajetória de Jesus também é vista como lugar no qual são estabelecidos vínculos de fraternidade, amizade e comunhão. A casa de Isabel e Zacarias é o lugar onde Maria estabelece laços de serviço e compaixão com sua prima. Jesus e os discípulos também eram convidados a entrar nas casas tanto dos consideraos justos, como daqueles considerados pecadores, tanto judeus como gregos, e comer com eles, como na casa de Zaqueu, num gesto de reconciliação que comunica a salvação. Jesus também ensinava e curava nas casas, sendo este, depois, o lugar das práticas catequéticas e celebrativas das primeiras comunidades. Jesus era acolhido por seus amigos Lázaro, Maria e Marta. Ele também era anfitrião ao receber as pessoas em sua casa. Na sua época, havia muitas pessoas sem-teto, vulneráveis, que receberam dele o carinho, a compaixão, a solidariedade e a libertação da marginalidade.
Os Evangelhos nos ensinam que o amor a Deus é inseparável do amor ao irmão, e o amor fraterno é a marca fundamental e determinante do cristão. Que o Espírito Santo de Deus nos dê discernimento e coragem para ver e lutar pelos direitos fundamentais de cada pessoa.
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