“Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14)

O lema da Campanha da Fraternidade nos lembra que ao nascer, Jesus não encontrou lugar na hospedaria. A partir da Palavra de Deus e do Ensino Social da Igreja, a CF 2026 (Texto base – Iluminar) quer conscientizar sobre a necessidade sagrada de teto, terra e trabalho para todos e corrigir a compreensão da moradia como mercadoria, objeto de especulação ou mérito individual, compreendendo-a como uma necessidade essencial para o desenvolvimento humano integral e um direito social.
Inicialmente, a terra, dada por Deus, é vista como espaço a ser habitado e cultivado para garantir a dignidade humana e a convivência com as outras criaturas (Gn 1-2). Depois da libertação do Egito, dos 40 anos de vida no deserto (Ex 12-24) e da posse da Terra Prometida (Nm 20-36), surge a necessidade de fixar-se num determinado lugar. O acúmulo de terra na mão de um determinado grupo sempre foi uma preocupação e uma tentação do povo de Israel. Por isso, são constantes os relatos sobre a distribuição da terra (Js 13-21; Ez 48).
Acumular terras e riquezas não fazia parte do plano de Deus. O direito a moradia era muitas vezes negado, por isso os profetas criticam (Mq 6,9-16) àqueles que, para manter seu luxo, com casas de marfim, de verão e de inverno (Am 3,15), exploram os indigentes, que não têm onde morar (Am 4,1), denunciando inclusive o roubo das casas dos pobres. Essas formas de se apoderar da moradia do outro são um desrespeito à dignidade do ser humano, ao seu direito, e um pecado estrutural, sobretudo quando estão envolvidos grandes proprietários de terra, juízes e o próprio rei ou dirigente de um determinado local. As denúncias se referem também às leis injustas e à cobrança de tributos excessivos.
Além do endividamento e das injustiças, as pessoas perdiam suas moradias quando migravam à procura de melhores condições de vida, sobretudo em períodos de seca e de fome, como é o caso da família de Jacó (Gn 46) e de Noemi (Rt); o mesmo acontecia em época de guerra e exílio quando perdiam suas casas, suas famílias, sua cultura, tradições e a forma de se comunicar.
Essa situação inspirou a esperança de um novo céu e uma nova terra (de uma nova criação), na qual haveria a convivência harmoniosa na terra, conforme anunciam os profetas acerca da volta do exílio e da era messiânica: “vão construir casas e nelas morar, plantar vinhas e consumir seu fruto” (cf. Is 65,16b-25; Am 9,14-15).
Que Deus nos ajude a reconhecer no outro um irmão, uma irmã e assim nos tornar próximos daqueles que vivem à margem, sem casa, sem terra, sem cidade.
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